quarta-feira, 14 de abril de 2010



Colonização


O índio fechou a toca,
a índia fez a rodilha de tapioca:

O índio disse ao Brasil
-no seu indianês-
que a nata grossa
do colonizador português
podou-nos da cultura nossa.

O índio fechou a toca
- pela última vez-
quando a índia
fez tapioca
para um holandês.

Maria Maria

Imagem da Net
Homenagem ao índio brasileiro (19 de abril), embora todos os dias sejam dias de índios.

sábado, 10 de abril de 2010


Inanimados

No canto mais singular de tua boca
nascem sorrisos sem fonte.

Tão inanimados!
Tão fora do contexto!

Chego a pensar:

__ Serão meus olhos que estão cegos?
Ou meu coração perdeu os sentidos?

Maria Maria

sábado, 3 de abril de 2010

Rompimento

Quando me impediram de falar,
silenciei.

Quando me imperdiram de gritar,
ocultei-me.

Quando me impediram de ser quem eu sou,
tirei todas as minhas roupas e

andei nua pelo mundo.

Maria Maria

quinta-feira, 4 de março de 2010


Cartas
Ao poeta Fernando Pessoa

Não fiz cartas pessoanas
(as ridículas)
Mas tenho a caixa de Pandora
-falsa!-
do tempo em que era jovem:
textos, poemas, cartões postais...
O carteiro sempre me trazia cartas
"ridículas" e estão todas silenciosas
na caixa velha de Pandora.


Maria Maria

terça-feira, 2 de março de 2010


Instantes de querer

Quero o minuto que se inscreve
para dizer-me.

Quero o instante que inicia,
recriando-se.

Não quero prever o amanhã
ele terá seus próprios instantes.

E então estarei livre
do tempo que se foi.

Se a vida não me permitir outros instantes
terei, ao menos, um poema escrito que diz:

__Fui eternamente feliz!.

Maria Maria

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010


Desalinhos


Queria desenhar o mundo
e nele, fazer-me adolescente
ou ninfa
dos Contos de Fada.

Mas meus desenhos
nem sempre seguem o Norte,
não entendo muito de direções
ou de bússolas.

Queria desenhar o mundo e não mostrar
seus efeitos colaterais: Vulcões, terremotos
e acontecimentos naturais que solidificam,
como amálgama, a doce idéia de mundo.

Mas eu posso desenhar o meu mundo
quando colaboro com a minha aldeia.
posso sim permitir que a folha da minha acácia
fique onde está.

Posso permitir que as formigas
- carregadoras de folhas-
façam o seu trajeto como um pássaro
livre no céu.

Posso desenhar um mundo
mesmo que este mundo
seja a representação
do meu universo interior.

Gildecir,
Paula
Maria Maria

Poema construído a seis mãos no encontro de Língua Portuguesa
realizado pela 9 Dired nos dias 24 e 25 de fevereiro de 2010, como parte do programa Olimpíadas de Língua Portuguesa, promovidas pelo MEC.

Tela: Lírio da Paz, por Eme Gomes

domingo, 21 de fevereiro de 2010


Aurora boreal

Eu tive um tempo. Um tempo “vazio”. Não havia promessas, nem expectativas, nem sonho. Talvez poesia. Sim, poesia havia. E lembro, com certa nitidez, de um vento. Não sei bem dele, se era vento norte, sul ou estrangeiro, porém era um vento docemente sensato comigo.
Naquela época eu enfrentava leões, dragões, serpentes ou o que viesse à minha frente. Talvez fosse mais inocente e não pensasse nas conseqüências dos fatos.
Esse tempo tão livre e meu era propriedade privada e lá eu abria janelas, fechava portões, guardava as torres como a proteger-me.
Eu era muito feliz naquela estação temporal e tinha caneta, papel e imaginação.
Não cuidava do jantar e nem esperava o marido. As companhias inseparáveis e mel eram minhas asas. Sim, as asas me levavam ao relógio de Londres, aos Moinhos Holandeses e as Cataratas do Iguaçu.
Eram momentos dourados porque eu tinha 18 anos e esses eram tempos de ouro, de aurora boreal.

Maria Maria

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010


Menina da Terra

Como terra que se compra,
fui lavrada numa manhã.

Não fazia sol e as nuvens
-sereníssimas-

e pouco afeitas a certos desafios
foram se dispersando:

Passarinhos e carneirinhos
transformaram-me numa menina-poesia.

Foi naquela manhã sem sol
às margens do Sertão do Seridó.

Maria Maria

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010


Fantasia

Meu carnaval acontece todos os dias
porque meus desejos experimentam
sempre uma nova fantasia.

Maria Maria

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010


Espelho das pedras

Deixava-me ver
pelas pedras-mosaicos
que serviam de palco
para os pirilampos.

Ali, fiz-me ninfa:

desenhei na areia
o teu corpo,
fazendo-te perfeito e humano
como um semideus desencantado.

Maria Maria

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010



Três quartos

De fora, postos à janela:
um lenço branco,
uma luva em renda,
um sinal de partida.

Em meus antigos olhos:
uma tarde rubra,
um certo espartilho,
uma lembrança.

Sobre meus fragmentos:
um pingo de tinta,
uma pena sem cor,
um poema.

Maria Maria

Foto: web

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010


O beijo da palavra

O beijo de Tritão
lê os meus fonemas
e ouve meus sons
de sereia.

O beijo de Zeus
em várias línguas,
faz em mim
oceano e areia.

O beijo de Eros
me despe as palavras
e a paixão, em fogo,
me incendeia.

Maria Maria

Imagem da net

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Estelares

Meu olhar de ontem
-mínimo e grande-
via estrelas no céu.
Via...
via pelas vias de um sonho infantil.

Meu olhar de agora
-oceânico e estelar-
ver ondas serenas
que vem e vão
no balanço do mar.

Maria Maria

sábado, 9 de janeiro de 2010


Areia do Seridó

São minúsculas as pedras
que formam a areia do rio Seridó.
Mas o vento
-soprando suave-
as levam para longe,
para além das aguas.

Que sumam vento adentro
e que rumem para um deserto
onde eu nunca possa revê-las,
porque passarei pelo rio heraclitano
e jamais serei a mesma
areia do Seridó.

Maria Maria

terça-feira, 29 de dezembro de 2009


O sol

O sol resolveu mostrar-se presente nesses dias de verão. Nada mais natural: é verão no Brasil. Analogicamente, o meu verão também se instala e vem sorrateiro como quem espreita a caça.
Escritos os projetos, vamos às construções: um novo amanhecer, uma cor mais amena para o entardecer, um branco mais leite para o algodão, uma serra mais verde para o coração...
Erguidas as ferramentas, vamos às inovações: um livro com jeito de romance, uma rima transbordada de Seridó, um castelo de sonhos imaginados, uma canção para a vida...
O sol deve se deitar nas próximas horas e eu terei de companhia um pardal, uma folha de acácia, uma vagem de algaroba, uma estrela brilhando e um poema na alma.

Feliz 2010!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Maria Maria

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009



Beco da lama


O beco estreito
da velha cidade
guardou os deleites
dos grandes amantes.

O beco estreito
da velha cidade
guardou uma pedra
de diamantes.

O beco estreito
da velha cidade
guardou as memórias
dos navegantes.

O beco estreito
da velha cidade
beco da troca,
beco da trama.

O beco estreito
da velha cidade
foi beco da dama,
o Beco da Lama.

Maria Maria

Imagem: Overmundo

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009


Natal-menino

Natal é tempo de infância,
de choro - menino,
de capim no campo árido
do Seridó.

Natal é tempo de orvalho,
de bois ruminando, de galos
e girassóis.

Natal é broto
de meu Lírio da Paz,
é encontro de janelas
e luzes.

Natal é o beijo
na essência
de nós mesmos.

Maria Maria

Imagem da net

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Epitáfio para o amor

Enquanto o amor não morre,
sigo a linha
e não há trens
na estação.

Numa tarde indefinida:

Terei a chance
- ao menos a última –
de não chorar pela morte
daquele amor sem estação.

Maria Maria

domingo, 6 de dezembro de 2009


Felina

Sou gata.

Toda noite, no telhado, viro fera
em cima de uma tapera
tão faceira a te esperar.

Sou gata.

Risco um grito sem fronteira,
pois eu sei que a lua cheia
quer em mim se derramar.

Maria Maria

Foto: Goga

domingo, 29 de novembro de 2009


Depois de antes

Branco lençol de algodão
branco.

Branca também era a entre-roupa
jogada ao branco chão de shelita pura.

Branco estava o hálito do leve licor
de cravos brancos.

Branca era a cama,
depois do amor.

Mas havia um botão lilás
sobre o travesseiro:

Bom -dia ou Boa-noite?
Foi colhido nos quintais do Seridó.

Maria Maria