sexta-feira, 25 de dezembro de 2009



Beco da lama


O beco estreito
da velha cidade
guardou os deleites
dos grandes amantes.

O beco estreito
da velha cidade
guardou uma pedra
de diamantes.

O beco estreito
da velha cidade
guardou as memórias
dos navegantes.

O beco estreito
da velha cidade
beco da troca,
beco da trama.

O beco estreito
da velha cidade
foi beco da dama,
o Beco da Lama.

Maria Maria

Imagem: Overmundo

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009


Natal-menino

Natal é tempo de infância,
de choro - menino,
de capim no campo árido
do Seridó.

Natal é tempo de orvalho,
de bois ruminando, de galos
e girassóis.

Natal é broto
de meu Lírio da Paz,
é encontro de janelas
e luzes.

Natal é o beijo
na essência
de nós mesmos.

Maria Maria

Imagem da net

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Epitáfio para o amor

Enquanto o amor não morre,
sigo a linha
e não há trens
na estação.

Numa tarde indefinida:

Terei a chance
- ao menos a última –
de não chorar pela morte
daquele amor sem estação.

Maria Maria

domingo, 6 de dezembro de 2009


Felina

Sou gata.

Toda noite, no telhado, viro fera
em cima de uma tapera
tão faceira a te esperar.

Sou gata.

Risco um grito sem fronteira,
pois eu sei que a lua cheia
quer em mim se derramar.

Maria Maria

Foto: Goga

domingo, 29 de novembro de 2009


Depois de antes

Branco lençol de algodão
branco.

Branca também era a entre-roupa
jogada ao branco chão de shelita pura.

Branco estava o hálito do leve licor
de cravos brancos.

Branca era a cama,
depois do amor.

Mas havia um botão lilás
sobre o travesseiro:

Bom -dia ou Boa-noite?
Foi colhido nos quintais do Seridó.

Maria Maria

quinta-feira, 19 de novembro de 2009


A poesia está de licença

todas as lamparinas foram apagadas,
as velas já não choram mais,
não há mais luz nos candeeiros,
e a brasa do velho fogão de lenha se diz fria.

A poesia deseja um tempo de recolhimento,
de pausa para a meditação, de chá de camomila,
de descanso e de incandescências.
Precisa dormir com(o) os anjos.

Maria Maria

domingo, 15 de novembro de 2009


Queridos amigos!

Gostaria de agradecer a todos que prestigiaram o lançamento do meu terceiro livro
CONTOS DE UM PASSADO PERFEITO.

O evento foi um sucesso graças a vocês.

Na foto:

O cordelista Antônio Francisco, recitando
Os 7 contos de Maria,
Júnior Caçarola registrando com a sua Rollyflex
e, ao lado, no telão, a imagem do poeta potiguar Nei
Leandro de Castro.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009


Queridos amigos!

Convido vocês a participarem do lançamento do meu terceiro livro em prosa que acontecerá dia 13 de novembro, às 20h, em minha terra natal Currais Novos.

Saudações,

Maria Maria

P.S. Clique sobre a imagem para ampliá-la.

sábado, 24 de outubro de 2009


Mulheres de chão

Vejo um pouco de mulher
nas sementes de algodão
ou nas vagens de algarobas,
plantando doçuras e colhendo rosas
como quem matura o coração.

Maria Maria

terça-feira, 13 de outubro de 2009


Homenagem ao Dia do Professor
15 de outubro


Queridos alunos e educadores,

Hoje, venho dizer obrigada:
pela oportunidade de ser mestra,
pela alegria de receber um sorriso,
pela dose generosa de aconchego,
pela vontade de aprender para ensinar,
pela mensagem de amor no meu dia,
pela força que tenho de lutar,
pela vocação do fazer por amor,
pela crença de que tudo vai mudar.

Creio que nada está perdido
e que a Educação sempre será a fonte inesgotável
de luz que clareia a consciência da humanidade.

Maria Maria

quarta-feira, 30 de setembro de 2009


Chegada

Quando a aranha pousa,
sobre o interruptor da sala,
sei que a poesia chegará.
O toque
- pousado sutilmente –
acenderá os meus versos
e eu serei a mais poderosa mosca
a escrever um poema.

Maria Maria

sábado, 19 de setembro de 2009


Pacto

Fizemos um pacto, meu amado!
Rompi as amarras
e revelei mentiras.
As verdades já são translúcidas.
Desarrumei todas as estruturas
e estou cumprindo a minha parte
no plano:
há dias, não durmo
de baby doll.

Maria Maria

terça-feira, 15 de setembro de 2009


Ausência

A ausência daquele verso noturno
fez-me órfã
do poema.

Mas, logo ao sol
-descido na Serra do Chapéu-
correu ao meu encontro:

filho pródigo.

Maria Maria

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Democracia

O legado grego de vovô
se guarda há milênios,
no porão da clareira.

Dorme na raiz
do meu sangue-índia:

nos cajus,
nas andorinhas,
nos girassóis.

O legado grego de vovô
descansa lívido
na Serra de Sant’Ana
nas terras do Seridó.

Maria Maria

sábado, 5 de setembro de 2009


Seca fria

Caiu um corisco
pontiagudo.

Furou o chão,
matou meu grão
de poesia.

Estou extinta.
em seca fria.

Maria Maria

domingo, 30 de agosto de 2009


Oito dísticos para a minha terra

Queria agora uma tarde de chuva no Seridó
com seu aconchego de mãe verdadeira.

Queria agora construir castelos
na areia permeável do terreiro de casa.

Queria botar água no vaso de louça
para as horas sertanejas.

Queria o lençol de retalhos coloridos
cheirando a pedras do quaradouro.

Queria sentir o redemoinho na entrada da casa
para eu dizer: “cruz, cruz, cruz!”.

Queria um sonho com melaço de açúcar
para adoçar os meus confusos sentimentos.

Queria construir um tempo de memórias
com antíteses disfarçadas em ventanias.

Queria alimentar meus sonhos verdes
Para receber, tranqüila, a maturidade.

Maria Maria

sexta-feira, 28 de agosto de 2009


Ambiguidade

A chuva é ambígua:
entristece-me sonolenta
ao mesmo tempo em que resgata
imagens de ventanias passadas.

Maria Maria

segunda-feira, 24 de agosto de 2009


Nau demiúrgica

E a nau demiúrgica
aportou silenciosa:

mão escrevendo a mata,
olhar taciturno a voar,
voz cantando ao longe,
canto do sabiá,
raiz do cajueiro,
farol a iluminar.

Natal cobriu o Brasil
com as águas virgens
do mar.

Maria Maria

sexta-feira, 21 de agosto de 2009


O amor

O amor é mesmo um ninho,
uma pluma de puá,
um lençol de tafetá,
a morada de um passarinho.

Maria Maria

domingo, 16 de agosto de 2009


À luz de candeeiros

As tardes de um ontem longe
acendem as minhas janelas
à luz de candeeiros
e trazem lembranças sinestésicas:

o cheiro de uma tarde de chuva,
o aroma do café coado no pano,
o sabor da broa de leite.

Em que baú de mim
guardei a rústica parede da infância?
em que tijolo salitre se escondem
meus insólitos segredos?

Maria Maria