quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O rio de todos

O rio
que abraça
a ponte
que aponta
para o poente
não é o mesmo
rio de Heráclito,
mas o de todos.

O rio me laça
com suas lembranças
cravadas nas pedras
brilhantes do Cruzeiro,
do navio estático,
próximo ao Pereiro
das Galinhas da Angola
(do Seridó).

O rio
é resiliente:
se preserva e se guarda
e se mantém perene
na memória.
Só me falta a chuva
para eu banhar minhas bonecas
às margens desse rio.

Maria Maria

segunda-feira, 3 de novembro de 2008


À décima hora

À décima hora
a boca do Seridó
se fecha como uma flor
de mandacaru:
os bichos
da terra e do ar
se olham noturnos
e se encerram necessários
como esse poema.

Maria Maria
Foto: As filhas de Raika: Rafa e Gabi

domingo, 2 de novembro de 2008

Seis da noite

Na ambigüidade do entardecer,
o tempo ruiu meus sonhos
e eu apaguei meus poemas.

sábado, 11 de outubro de 2008

Esse poema dedicado a mim merece fazer parte desse espartilho. Gracias!

Maria²

Maria ao quadrado
Maria Maria
Marias
mareando
a pluralidade da vida.
Não és só uma Maria
és duas,
deixando a singularidade de lado
para ser a estrela de dois focos.


Oreny Júnior 11.10.08

Mudança de rumo

Quero morrer por um tempo,
por uma eternidade quero morrer
e esvair-me em respiração:
pura, compassada, intensa.

Uma morte que eu preciso
ou que me precisa .
A morte na vida em vida
no sentido, na exatidão.

Quero morrer por um tempo
sem que o tempo me peça palavras
e não me meça, não tenho medida
para morrer.

Morro por querer viver
e com toda a chama da palavra amor
e com todo o ardor que sinto.
Quero morrer para viver.

Maria Maria

domingo, 28 de setembro de 2008


Crateras

Nas crateras do meu tempo
tu ocupas o pensamento,
ruindo meu coração.

Nas crateras do meu tempo
vais rompendo esse silêncio
que sufoca minha razão.

Nas crateras do meu tempo
eis ladrão do meu lamento
que rouba a minha ilusão.

Nas crateras do meu tempo
vais compondo, preenchendo
um tempo que não diz não.

Das crateras do meu tempo
vou tangendo o sofrimento
que assola a minha paixão.

Das crateras do meu tempo
eu liberto, eu rebento...
abro os olhos pra’imensidão.

Maria Maria

quarta-feira, 24 de setembro de 2008


Origem

Mandalas, mandalas
o mundo se avizinha
em círculos de tenra idade.

Maria Maria

sábado, 20 de setembro de 2008


Nudez

Tirei tudo de mim
nessa madrugada:
os brincos, os anéis,
as vestes de santa,
os terços, a calcinha
branca.

Maria Maria

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

ANÚNCIO CLASSIFICADO

Preciso urgentemente de um pintor:
que retoque,
toque,
pinte
o meu coração.

Preciso de um construtor
para ressurgir as ruínas

__ Vendaval que passou.

Preciso de flores na casa,
cortinas divididas

Um sino do vento
Pendurado à janela,
preciso!

Preciso de luzes de velas
para iluminar o telhado
e a mesa de jantar.

Preciso reconstruir
meu coração
com uma cama para amar

Preciso ser Cleópatra
e
em um tapete me enrolar.


Maria Maria

quarta-feira, 27 de agosto de 2008


Desejo de me perder

Vou me perder essa noite.
Não quero bússolas nem rosas
dos ventos.

Terei as estrelas, os sapos
e corujas com os olhos cheios
de lua.

Carregarei na sacola
um pouco do nada ou
tudo.

Abrirei as janelas,
Sininhos poderão entrar
com as bruxas.

Vou me perder essa noite
para me encontrar ao raiar do dia
deitada sobre uma cama de girassóis.


Maria Maria

terça-feira, 19 de agosto de 2008


Pousando

Já fiz a boa ação de hoje.
Já fui cortesã por uma noite
e já fui borboleta
em pétala de girassol.

sobre o vazio
Agora não me restam mais
dedos. Eles já sucumbiram
de solidão.

Maria Maria

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

De origem Seridó

Acho que sou de pano,
de cabelo de milho,
de bagem de algaroba,
de barro do Riacho,
de semente de algodão.

Acho que sou a goteira,
a noite e a tarde de chuva,
a aurora, a madrugada. Ou
uma boneca de pano
com sachê no coração.

Maria Maria

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Foda-se o mundo e quem vive nele

Fodam-se todos!
O ódio rasga meu peito,
sobe para a mente e me domina.
A dor que eu sinto é boa, gostosa, me fascina.
Porque os políticos mandam os pobres para
guerra em vez de irem eles mesmos?
Porque as cobras são discriminadas
porque tem veneno?
E os homens
que o veneno deles está na alma
sofrida, torturada. As mortes causadas
são piores que qualquer veneno
e mesmo assim não são discriminados.
E os negros, pobres, gays não têm direitos?
Fodam-se se todos!
Foda-se o mundo!
Vivi, cresci , envelheci, morri!!!
E nunca fui feliz!!!
Que mundo patético, cheio de ilusão!
Para que viver em um mundo
onde sonhos são apenas sonhos?
Rico: mesquinho, ganha tudo
sem fazer esforço e acha
que é melhor que os outros
a ponto de pisar em todos.
Pobre: trata bem os outros,
trabalha e sabe o sofrimento
que a vida lhe traz.
Pobre quando vira rico
muda o caráter,
fica sem amigos de verdade.
Se esquece que um dia foi pobre,
vira um mesquinho.
Rico quando vira pobre
aprende a valorizar,
não só aquilo que se tem,
mas o que está ao seu redor.
Humanidade miserável!
Cada vento é um grito,
pedindo ajuda, pois o mundo
está morrendo.
Guerras, fome, a humanidade
tem o dom de causar tristeza.
Amigos? Nunca os tive,
mas consegui sendo outra pessoa.
Mas o que isso provou?
Apenas que sou fraco.
Hoje em dia, viver não é mais um desejo
e sim um sonho ruim, esperando
que um dia eu acorde e esqueça que dormi
e que um dia eu sonhei....

Artur Gomes Guirra (14 anos)

sábado, 2 de agosto de 2008


UTOPIA

Às vezes ser pedra, queria: dura, firme e opaca. Queria ser, em certas temporadas, tão seca como uma folha outonal: stric, stric, stric...! Sem nunca ter sido primavera. Há horas em que eu gostaria de ser vidro para partir-me em fragmentos e deixar-me retesada sem a força do vento, impulsionando-me à frente. Tempo há em que a alma dilacera e o corpo chora, chora mesmo, pelos poros de uma tez amadurecida. E a chuva cai! Granizos rompem telhados que impedem uma noite de amor entre os gatos. Tudo na meia estação ou em um inverno de sentimento gélido, de amores mal amados. Mas, o verão me diz que a minha palavra nua sempre será perdoada e que, com ou sem gatos no telhado, terei uma linda noite de amor com meu parceiro imaginário.

Maria Maria

quarta-feira, 30 de julho de 2008

O instante

Que doce encanto,
o instante!

Nele, desfaço o compromisso
com o próximo segundo.

E te vejo canoa
às margens de um rio.

Maria Maria

segunda-feira, 21 de julho de 2008

É tarde, amado poeta!

Dormirei nua o sono das deusas
e acordarei girassóis do eterno
estado de adormecência.

Farei o sol girar em círculos
como lobos à caça de um beijo
e alçarei vôos como as gaivotas.

Não serei a escrava de um reino
escondido. Não serei.
Mas a rainha da janela.

Embora deseje-te à hora
em que o chão dorme, não
posso me dizer mais...

É tarde, não te canses do teu tempo.
Durma, nesse meio tom.
Durma, amado poeta!

Maria Maria

domingo, 13 de julho de 2008


Dia de sal

Esse dia de sal
me apavora,
assim como as procelas
em mar alto.

Assim como o medo
noturno em forma
de fogo no meio
do chão.

Esse sol que o dia
se nomeia é a dor
de quem espera
o ser amado na escuridão.

Maria Maria



segunda-feira, 7 de julho de 2008


Para os que pensam
tal qual os índios.

Círculos

Abençoados sejam
os trovões:

o brilho semiótico nas rochas,
o olhar selvagem do céu,
o êxtase dos brotos,
a sede de romper o chão,
a ponta do verde,
os círculos de fogo.

Abençoados sejam
os relâmpagos:

o germinar dos fios,
o deitar dos rebentos,
a ereção dos bulbos,
o sopro do vento,
a boca do tempo,
as vozes da manhã.

Abençoados sejam.

Maria Maria
(das tribos do Seridó)

sábado, 5 de julho de 2008

Silo de poesia

A poesia é
um silo
de amor
que se
constrói
ao longo
da existência
humana.

Maria Maria

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Esse poema é dedicado
ao erotismo sutil dos
poetas simbolistas.


A folha e a árvore

A folha folheou-se
na árvore.

Com a canção
de Eros, erotizou-se.

Colheu a folha,
a árvore.

E a bolha, de clara
virou gota.

E o gozo
era verde-folha.


Maria Maria


Foto: charquinho.blogs.sapo