domingo, 16 de agosto de 2009


À luz de candeeiros

As tardes de um ontem longe
acendem as minhas janelas
à luz de candeeiros
e trazem lembranças sinestésicas:

o cheiro de uma tarde de chuva,
o aroma do café coado no pano,
o sabor da broa de leite.

Em que baú de mim
guardei a rústica parede da infância?
em que tijolo salitre se escondem
meus insólitos segredos?

Maria Maria

quarta-feira, 12 de agosto de 2009


Meninice

No quintal da minha juventude
vô vaqueiro entoava um canto:

__ Beba água de poesia,
menina!
Tome um gole, todo dia
como forma de oração!

Parecia religião
o que vô vaqueiro dizia:
__ Ser fiel à poesia
é dar vida à emoção.

E aí, entre o canto e a voz,
a palavra exalava o tom azul
do meu começo.

Maria Maria

sábado, 8 de agosto de 2009


Com os olhos do dia

Celebro a terra
e batizo
- com a água da chuva -
todo o meu amor.

E com o giro do sol
e a sutileza da lua
dou-me
inteira,

Lúcida
e fênica,
como quem renasce,
das cinzas.

Maria Maria

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

quinta-feira, 30 de julho de 2009


Poema dedicado ao meu pai
Luiz e a todos os pais,
cuja homenagem acontecerá
nesse mês de agosto.

Presente

Papai um dia
me disse:
“Filha, toma a vida
de presente!”

E eu,
displicente,
peguei-a pela
mão.

Papai estendeu-se
mais ainda:
“Filha, toma as rédeas
da situação!”

E eu, que às vezes fico
por um fio,
peguei docemente os desafios
que papai pôs em minhas mãos.

Maria Maria

domingo, 26 de julho de 2009

Saudações, amados poetas!

Venho agradecer a todos vocês e,
especialmente, a nossa amiga Jeanne Araújo,
uma poetisa completa das terras seridoenses,
pela escolha do Espartilho de Eme
como Blog de Ouro.

Recomendo a vocês a visita ao blog
da Jeanne Araújo.
www.jeannearaujo.blogspot.com

Agora, vamos às regrinhas:

1. Exiba a imagem do selo “Blog de Ouro”;
2. Poste o link do blog de quem te indicou;
3. Indique 4 blogs de sua preferência;
4. Avise seus indicados;
5. Publique as regras;
6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo.

Os meus indicados são:

www.grandeponto.blogspot.com
www.museudetudo.blogspot.com
www.teiadetextos.blogspot.com
www.eraparasercancao.blogspot.com

Beijos dourados de poesia

sábado, 25 de julho de 2009


Menino do sol

Quando você chegou,
menino do sol,
eu desfiz
minhas sequencias diárias
e renovei:
a toalha da mesa,
as flores de plástico,
as cortinas de chitão
e
acendi o fogo
com um pavio de algodão.

Maria Maria

terça-feira, 21 de julho de 2009



Velhice


A Luiz Carlos Guimarães

Desejo uma velhice festiva:

o girassol girassolando para a pedra
do Navio,
uma vagem de algaroba alimentando
novilhas,
o Seridó poetizando pelas ocres margens
do rio,
o pássaro Craúna fugindo
das armadilhas.

um barril de vinho transbordando
poesia,
um doce de leite cozinhando
no alguidar,
um verso rimado pela minha
teimosia,
um pote antigo para a história
preservar.

E eu recitando um lindo poema de Guimarães.

Maria Maria

sábado, 11 de julho de 2009




Águas

Água de chuva para o corpo cansado
Água de chocalho para o pouco falar
Água de colônia para o cheiro no amor esperado
Água do açude para as partes lavar.

Água de biqueira para uma tarde de chuva em Currais
Água de choro para amaciar a dor
Água de bica para limpar os quintais
Água de rosas para chamar o amor.

Água de poço para o beijo escondido
Água de lua para fazer poesia
Água de igreja para afastar o maldito
Água de nuvem para paixão fugidia.

Água de pote para matar a sede
Água de quarta para lembrar vovô
Água de açúcar para deitar na rede
Água de saudade para molhar o cobertor.

Maria Maria

quinta-feira, 9 de julho de 2009


Baú dos vestidos

Para a minha avó Chiquinha

Todos os meus vestidos
foram tecidos
com os fios dos vestidos
das mulheres de ontem.

Massacrados pelo vento,
apagados pelo destino,
meus vestidos e suas texturas
se refazem todo tempo.

Todos os florais
dos meus vestidos
- vestidos por tantas Marias-
se dobram recolhidos.

São vestidos de múltiplos tons,
de chitas estampadas, de saias rodadas,
guardados delicadamente
no baú ensabonetado de minha avó.

Maria Maria

terça-feira, 7 de julho de 2009


(Uni) inverso

Meu (uni) inverso não permite
a entrada de estrelas cadentes
nem mesmo sóis de sertão,
nem cometas reluzentes,
nem asteroides da imensidão.

Meu (uni) inverso
é cauteloso, paciente
cuidadoso, benevolente
é um planeta solitário
em primeira construção.

Maria Maria

domingo, 28 de junho de 2009


Navegar

Eu não tenho
canoa para navegar,
mas tenho jangadas
que me levam para o mar

de poesia.

Não tenho a proa
para o vento levar,
mas tenho a magia do livro
para me fazer voar.

Maria Maria

quinta-feira, 18 de junho de 2009


Alimentos

Alguns alimentam sertões:

cascalhos,
brotos,
vagens,
navios de pedra,
galhos – meninos,
xiquexiques.

Eu,
amante da poesia,
alimento folhas,
fios,
linhas,
tinta,
fantasia.

Maria Maria

Foto: web

sexta-feira, 12 de junho de 2009


Poema dedicado ao
Dia dos Namorados


O exercício do amor

Acordar com gosto de sol, diariamente;
lavar a alma com água de lua;
hidratar os lábios com doses generosas de beijos;
dizer Bom-dia a um passarinho azul;
roubar um galho do vento;
(ele o traz)

Sorrir com o leite, simbolizado no lençol;
acariciar o ventre inebriado de flor;
fazer porções mágicas com pó de saudade;
cobrir o corpo com pétalas de noite.

Repetir a cada instante:

“Amo-te até o próximo século.”

Maria Maria

Foto: web

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O poeta Oreny Júnior fez sua
leitura do poema Digestão.

abaporu tupi or not tupi tarsiwald tarsila
amora amorável d'amaral drummond andrade minas
itabira bira mira alvo transparente branco blanco
octávio paz a espécie poética que lavrae ara a palavra
ao encontro da alma literária de si mesmo de todos nós
antropofagia arrote o egoísmo inumano.

Oreny Júnior

quinta-feira, 4 de junho de 2009


Poema dedicado a Oswald Andrade
e ao movimento antropofágico


Digestão


Comi:
tapioca,
paçoca,
mandioca
(com chá de manjericão)
Arrotei um índio,
quando fiz
a digestão.

Maria Maria

domingo, 31 de maio de 2009

Completando o poema de Moacy Cirne,
o Canto da Boca disse:


tínuo, partilhado, penetrado, tornado, trito, tente, tido, templado, meçado, batente, binado, meta, movido, pacto, pleto, primido, prometido, mungado. Um poema com:

www.cantodaboca.blogspot.com
Sobre o poema Primeiros Momentos,
Moacy Cirne escreve outro poema.


Um poema com sustança
Um poema com susto
Um poema com
Um poema
Um poe
Um po
Um
Um po
Um poe
Um poema
Um poema com:

sábado, 30 de maio de 2009


Primeiros momentos
(nada inéditos)


Todos os dias
bebo um pouco
das nove horas da manhã.

É o meu primeiro hálito
respirado com cheiro de dia
já adolescente.

É o meu primeiro
beijo no tempo
que começa tarde.

E o que vem
são meros plurais,
nada inéditos.

E, seguindo a rota do desconhecido,
vejo-me como a pena
de um pássaro azul.

E, como se fosse eterna,
a tela se repete
como o círculo de fogo no tempo.

Maria Maria

Imagem tirada da net

domingo, 24 de maio de 2009


Renda

Mamãe,
sentada no tamborete
tecia com alfinete
um rolo de bico.

Os bilros,
deslizando pelos dedos,
trançavam um filete
de fuxico.

Mamãe,
sentada no tamborete
ainda com alfinete, dizia:

“Menina, pega uma caneta,
senta na maleta
e vá escrever poesia”.

Maria Maria

terça-feira, 12 de maio de 2009


Sobre o tempo no Seridó

Esse rio de efemérides
desemboca nesses tempos
de invernos incomuns.
Nunca vimos nossos espaços mofados,
esse cheiro pesado de guardados,
o vento seco desfiando umidade
como quem desfia um colar de schellita.

Pouco vista é a paisagem verde-bandeira
com guinés, correndo pela caatinga.
E, enfeitando essa imagem,
garças lindamente brancas.
Muito menos se via a água confusa
deitando-se sobre o chão permeável
do Seridó.

O olho da ancestralidade
outrora via um sertão
se metamorfoseando
num imenso mar de águas doces.
E hoje,
eu vejo minha alma
inundada de incertezas.

Maria Maria

Foto: brasilpassaros.blogspot.com

domingo, 19 de abril de 2009


(Des)oriente

Nada me retoma
do tempo das fogueiras:
tiro a roupa, o fogo me espera.

Cada certeza e cada afago
é uma espiã
desvairada.

Tenho a dúvida
como inconsciência
do que sou.

Cada espera
é uma esfera
de luzes e sombras.

Não entendo mais de bússolas
estou em estado
de (des)oriente.

Maria Maria

quinta-feira, 16 de abril de 2009


Gosto da poesia e música
de Oswaldo Montenegro. Segue,
então, um dos poemas- canções
que eu entendo como lírico-erótico.

Virgem (Oswaldo Montenegro/Mongol)


Ela era virgem
E o vento alisava seus pelos pr'ela suspirar
E era um namoro selvagem de sexo de ventania
E quando o vento não vinha
Ela mesmo corria pra ventar
Ela era virgem
E o mar só lambia suas coxas pr'ela se molhar
E ela era só maresia em dia de tempestade
Ela deixava a cidade e abria suas pernas para o mar
E roçava os cães com a pele cálida
Pássaros na mão, cobras no ar
E amava tigres e leões, gatos nos porões
E à noite dormia encharcada

sábado, 11 de abril de 2009


Chuva de abril no Seridó

Dó ré
mi
fá sol

si
bila a chuva
sem sol.
E a chuva
toc, toc...
vai compondo
sinfonias nas teclas
do meu telhado
nesta noite em que
a Vésper fa
la mansamente à lua
que a maré tem dó,
de mim.

Maria Maria

quinta-feira, 2 de abril de 2009


CANÇÃO DO TEMPO DOCE

Às duas da tarde
o quebra-queixo
é vendido pelo doceiro,
e o tempo doce de coco,
o tempo ameno de amor
vai se desmanchando
em guloseimas e babas
que escorrem pelo canto
mais escondido,
da boca.

Maria Maria

Foto:Romance in red" de Alfred Gockel

quarta-feira, 25 de março de 2009


Flor da craibeira

Nesse corpo-menina
- de longa via passada -,
de certos enleios de vida,
de fomes na madrugada,
guarda no sempre uma flor
de craibeira copada.

Maria Maria

sábado, 21 de março de 2009


Desassossego

O instante
às vezes me atormenta:

toca-me o ombro,
desembala meu sono,
acorda o parceiro
que dorme,
mexe na minha loucura,
rouba-me a solidão,
tira-me, escondido,
todos os meus sentidos.

O instante se afoga
nos fonemas da palavra.

terça-feira, 17 de março de 2009


Redemoinho

A noite silenciosa dos meus seios
chega em desalinho:
lenta,
opaca,
tímida.

Solto o verbo na escuridão
e ouço:
passos,
ventania,
redemoinho.

Maria Maria

quinta-feira, 12 de março de 2009














Cantiga para a noite nos Apertados

Na areia de um rio inocente
meus pés-meninos caminhavam.
A pele sentia o frio indecente
e o assobio do vento na madrugada.

Era tímida a noite reluzente
quando a lua refletia na alvorada
e o canto da ave persistente
ecoava nos voos da passarada.

Vi o Pe. Anchieta, pensei sozinha de repente,
Logo que um cipó descia na enxurrada,
uma folha, folhinha, semente
e uma folha no galho desgarrada.

O poeta, a poesia sente!
Disse-me o canto rouco do azulão
e na areia daquele rio inocente
ouvi as pegadas poéticas do meu coração.

A noite em minutos era displicente
e o sol me saudava com uma borboleta.
Deitou-se a última estrela cadente
e a poesia do cajado de Anchieta.

Alisei com os pés a areia-gente
e tentei aprontar a minha idéia.
A poesia voava fluentemente
como a flecha de Aquiles numa epopéia.

Não era a Grécia de Helena adolescente
nem as terras dos pássaros enamorados
nem as pedras, caminhos das serpentes.
Era o rio e a areia dos Apertados.

Maria Maria

segunda-feira, 9 de março de 2009


Tercetos

Toma meu seio, minha voz,
minha mina de amor,
meu coração, minha flor.

Meu corpo, agora,
não mais entende,
de solidão.

Maria Maria

sábado, 28 de fevereiro de 2009


Serpente dos Apertados

O rio dos Apertados
serpenteia o seu nome
e desce escamoso
sobre os rochedos.

E as claras em neve
desembocam nuas
sob a sombra tímida
dos arvoredos.

Maria Maria

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009


Banho de rio nas águas dos Apertados

Banho de rio sobre as pedras.
Nus, você e eu.

E os peixnhos brincando
de infância.

Somos deuses sem nomes
eternizados naquelas rochas.

Maria Maria

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009




VOU-ME EMBORA

Vou-me embora
Vou-me embora
Levo Mário e Bandeira
Vou para as terras do sem-rei
Lá não terei amores
Nem o homem que escolherei

Vou-me embora
Vou-me embora
Levo Mário
e Bandeira
Levo a saudade da terra
Vou ultrapassar fronteira

Vou-me embora
Vou-me embora
Levo Mário e Bandeira
A poesia como escudo
O sonho de um dia mudo
Na ponta de uma estrela.

* Para Mário de Andrade
e Manuel Bandeira, meus
dois brilhantes da literatura
brasileira.

Maria Maria

sábado, 14 de fevereiro de 2009



A LÍNGUA É MINHA

A língua é minha!
Não importa onde ela passe.
Eu posso dizer o que penso
E fazê-lo, também.
A língua é sábia,
Libidinosa,
Perigosa.
A língua dá água na boca
E fala a língua da louca.
A língua míngua
Um desejo,
Um beijo...
A língua desliza
Por todos os continentes
E passa e cospe e brinca
Com os “esses” e “ais” que
Ela provoca.
A língua é o reflexo do
Desejo e goza dos outros.
A língua é doce.
A língua enrola e dobra
No bolso.
A língua ginga e pinga
E grita e diz como quer.
A língua é verso, é livre
Como o livro.
É língua sem linguagem
É órgão ou imagem.
Seja a língua o que quiser!

Maria Maria

sábado, 7 de fevereiro de 2009


Instintos

Nesse jardim de inverno
repousa um passarinho pardo.
As penas
(entre um marrom, um cinza e um marrom)
deitam-se sobre o barro úmido
nessa manhã sem estação.

Maria Maria

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009


Gosto muito da poética de
Ramos Rosa, por isso, O
Espartilho faz questão de
colocar um dos mais lindos
poemas desse poeta português.

A noite chega com todos os seus rebanhos

Uma cidade amadurece nas vertentes do crepúsculo
Há um ímã que nos atrai para o interior da montanha.
Os navios deslizam nos estuários do vento.
Alguma coisa ascende de uma região negra.
Alguém escreve sobre os espelhos da sombra.
A passageira da noite vacila como um ser silencioso.
O último pássaro calou-se.As estrelas acenderam-se.
As ondas adormeceram com as cores e as imagens.
As portas subterrâneas têm perfumes silvestres.
Que sedosa e fluida é a água desta noite!
Dir-se-ia que as pedras entendem os meus passos.
Alguém me habita como uma árvore ou um planeta.
Estou perto e estou longe no coração do mundo.

de A Rosa Esquerda(1991)

Antonio Ramos Rosa

domingo, 1 de fevereiro de 2009


Cavalo de Tróia

Se eu fosse
Helena de Páris
teria sido
mais sagaz:

teria desejado só para mim
aquele enorme presente de grego
cheio de homens,
armados.

Maria Maria

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009


Permanência

Que o instante mudo
da manhã recém-nascida
se permaneça.
Que eu me permaneça,
em mim.
Outro poema e autor que merece
fazer parte desta casa.

Maria

Da sua janela
Você espia
A vida bela
De um povo seridó...
Um povo que deixa-se pintar
Na tela da poesia...
Um poema?
O padeiro assoletrando a palavra PÃO às 5 da matina...
Bela forma o seu enfeite
De boneca de pano
Deixando cair o véu
Das espigas de milho
E brotando a mulher
Da roça nordestina...

Abraços
Oreny Júnior

30 de Janeiro de 2009 15:45

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Esse poema merece estar aqui.

PARABELA

Você é bela rebela
As pétalas do coração
Terna entorna retorna
Contorna a escuridão

Que tange a noite pro dia
No que tange a rebeldia
Do sonho revolução
Parabela feito bala

Exorta o vírus da fala
Onde o amor se instala
A violência resvala

No mel de sua beleza
Favo de luz posto à mesa
Pro apetite da abelha.

geraldo maia - Salvador-Bahia

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Janela

Tua boca exalava
o hálito da primeira manhã
e o teu gosto de amor
penetrava-me
como o brilho do sol
na minha janela.

Maria Maria

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Epitáfio para as duas flores

Para Kátia e Jaianne

Nós brincávamos no jardim da nossa infância,
na floresta onde mora a alegria.
Éramos pássaros livres na distância,
no suave céu da fantasia.

Nosso tempo de flores coloridas
com bonecas, casinhas e florais.
Tempos doces que marcaram nossas vidas
como as doces poesias madrigais.

Eram tempos de encontros escondidos
nas pracinhas do caminho-Seridó.
Eu gritava de euforia, tempos idos
__ Nossa vida é de flores, nunca só.

Mas o vento soprou em redemoinho
na real velocidade de um tufão.
E no céu, as folhinhas foram indo
como as penas leves de um faisão.

Ora, ora! Nossa vida não é mais aqui e agora.
É no céu, junto aos anjos, em turbilhão,
é nos braços de Deus, na aurora
nos jardins que enfeitam o coração.


Professora Maria José Gomes

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Matinal

Cinco da manhã:

o silêncio do sonho,

a hora doce do sono

(melhor das horas)

e o padeiro trazendo

os primeiros ecos

de poesia.

Maria Maria

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Poema de ausência

A razão me farta,
atropela a emoção
e a poesia não
se faz mais silo
nesse sertão
de palavras rotas,
de versos vagem,
de troncos finos
de algodão.

Maria Maria

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008


25

Estou órfã
de certos instantes!
Moro nas águas abissais,
e os peixes estão verdes,
não posso aventurar-me
mais nesse mergulho:
não sei nadar,
assim como não sei
navegar.

Maria Maria

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008











Natal no Seridó


O terreiro bem varridinho,
a vassoura encostada à janela da casa,
Bom-dia e Boa-noite saudando a todos,
o pote cheio, o caneco areado e
brilhando, a chaleira em cima do fogo
de brasa, a cama bem forrada com uma
colcha de fuxico, um vestido de chita
engomado e no camiseiro para a missa
da noite santa, um chapéu de couro
pendurado num mourão, uma imagem
de Nossa Senhora e o Menino Jesus na parede
enfeitada por um rosário de contas azuis,
um gato dormindo no tapete de retalho, um
chocalho sininando, um galo anunciado:

É Natal no Seridó.

Maria Maria

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Entre dois garfos

O espaço mínimo e fino dessa dimensão é o que me torna – um pouco – clariciana. Como dividir, já dividido, os átomos entre dois metais de textura e forma iguais? E como ser repetitiva num tempo em que a repetição não é mais um modelo de parceria?

Reitero. Reitero sempre e sempre me renovo como o copo de leite nascido no meu jardim de inverno – nesta terra de verões. Branco e virgem, taludo, gomoso. Primeira imagem de broto vesperado.

Aos poucos, nasce o verde que desafia o tempo e cresce intenso na sua missão de ser sempre a cor que o coração deseja.

No momento não consigo abstrair respostas do meu livro como os místicos. Acho- me perdida entre as páginas ou as respostas são parábolas para a minha mente pouco sagaz.

Juntaremos os garfos? Diminuiremos o espaço entre as fortalezas de metal? Ou faremos as construções parnasianas? Se colocarmos os garfos à prova do fogo, quem sabe não faremos deles um só garfo ou, ao final do processo de moldar o ferro ou o ouro não tenhamos construído um interessante poema parnasiano?



Maria Maria

sábado, 6 de dezembro de 2008

Meu olho-rio

Navego ao amanhecer
pelo meu corpo:
canyons se formam em estruturas
geo-poéticas,
pedras míninas se transformam
em diamante,
folhas deitam-se sobre minhas
águas,
cipós passeiam sobre minha carne
(entre o dormir e o acordar).

Meu olho-rio rir
desse estado. Acho
um riacho de poesia.

Maria Maria

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008


Lua sensual

Nunca vi
uma bunda-lua,
talvez tenha visto
uma bunda-nua
como a do cavalheiro
que se fez sol sobre mim.

Maria Maria

sábado, 29 de novembro de 2008

Dúvidas

Às vezes duvido do poder
do pensamento
e, tal qual pássaro amarelo,
duvido do azul do céu,
do brilho das estrelas,
do reflexo do sol,
do raio e da luz.

Duvido da ânsia
de ser humana no universo
da mulher moderna.
Duvido da fúria do trovão,
da sede que sente o cacto,
da dor de tornar-me obsoleta
em décadas futuras.

Duvido do viço da minha pele
inabitada por fendas oblíquas,
do suor que desliza rio
pelo meu corpo.
Duvido do que sou nessa hora
sem tempo.
Duvido do tempo.

Tenho apenas uma única certeza:
Um poeta dorme em mim,
em dúvida.

Maria Maria

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Repetição

Os dias se repetem:
a chaleira sobre a brasa,
a água borbulhando no escuro,
o cheiro de calendário velho na parede,
a sede de molhar o lençol ao deitar,
a toalhinha íntima com a lua.
Os momentos se multiplicam como as folhas
daquela planta no jardim de verão da tímida casa.

Maria Maria

domingo, 16 de novembro de 2008

Poesia do desentendido

Pouco entendo de poesia,
mas vejo a lua engravidada
de êxtase.
Logo, escancaro minhas janelas.

Maria Maria

Poema dedicado a Cirne e Castro, duas
almas livres do Brasil.

Poesia-nua

Precisava ver meu avesso:

li Pessoa, Rosa,
Ramos Rosa.
Li dos Anjos do céu
e da terra.
Li o Seridó com meu olho
nu de fêmea sertaneja.
Li Chico e Ojuara.

O avesso se escondera:
tirei a roupa.

Maria Maria

José Ferraz de Almeida Jr (Brasil,1850-1899) Moça com livro, 1879, MASP

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O rio de todos

O rio
que abraça
a ponte
que aponta
para o poente
não é o mesmo
rio de Heráclito,
mas o de todos.

O rio me laça
com suas lembranças
cravadas nas pedras
brilhantes do Cruzeiro,
do navio estático,
próximo ao Pereiro
das Galinhas da Angola
(do Seridó).

O rio
é resiliente:
se preserva e se guarda
e se mantém perene
na memória.
Só me falta a chuva
para eu banhar minhas bonecas
às margens desse rio.

Maria Maria

segunda-feira, 3 de novembro de 2008


À décima hora

À décima hora
a boca do Seridó
se fecha como uma flor
de mandacaru:
os bichos
da terra e do ar
se olham noturnos
e se encerram necessários
como esse poema.

Maria Maria
Foto: As filhas de Raika: Rafa e Gabi

domingo, 2 de novembro de 2008

Seis da noite

Na ambigüidade do entardecer,
o tempo ruiu meus sonhos
e eu apaguei meus poemas.

sábado, 11 de outubro de 2008

Esse poema dedicado a mim merece fazer parte desse espartilho. Gracias!

Maria²

Maria ao quadrado
Maria Maria
Marias
mareando
a pluralidade da vida.
Não és só uma Maria
és duas,
deixando a singularidade de lado
para ser a estrela de dois focos.


Oreny Júnior 11.10.08

Mudança de rumo

Quero morrer por um tempo,
por uma eternidade quero morrer
e esvair-me em respiração:
pura, compassada, intensa.

Uma morte que eu preciso
ou que me precisa .
A morte na vida em vida
no sentido, na exatidão.

Quero morrer por um tempo
sem que o tempo me peça palavras
e não me meça, não tenho medida
para morrer.

Morro por querer viver
e com toda a chama da palavra amor
e com todo o ardor que sinto.
Quero morrer para viver.

Maria Maria

domingo, 28 de setembro de 2008


Crateras

Nas crateras do meu tempo
tu ocupas o pensamento,
ruindo meu coração.

Nas crateras do meu tempo
vais rompendo esse silêncio
que sufoca minha razão.

Nas crateras do meu tempo
eis ladrão do meu lamento
que rouba a minha ilusão.

Nas crateras do meu tempo
vais compondo, preenchendo
um tempo que não diz não.

Das crateras do meu tempo
vou tangendo o sofrimento
que assola a minha paixão.

Das crateras do meu tempo
eu liberto, eu rebento...
abro os olhos pra’imensidão.

Maria Maria

quarta-feira, 24 de setembro de 2008


Origem

Mandalas, mandalas
o mundo se avizinha
em círculos de tenra idade.

Maria Maria

sábado, 20 de setembro de 2008


Nudez

Tirei tudo de mim
nessa madrugada:
os brincos, os anéis,
as vestes de santa,
os terços, a calcinha
branca.

Maria Maria

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

ANÚNCIO CLASSIFICADO

Preciso urgentemente de um pintor:
que retoque,
toque,
pinte
o meu coração.

Preciso de um construtor
para ressurgir as ruínas

__ Vendaval que passou.

Preciso de flores na casa,
cortinas divididas

Um sino do vento
Pendurado à janela,
preciso!

Preciso de luzes de velas
para iluminar o telhado
e a mesa de jantar.

Preciso reconstruir
meu coração
com uma cama para amar

Preciso ser Cleópatra
e
em um tapete me enrolar.


Maria Maria

quarta-feira, 27 de agosto de 2008


Desejo de me perder

Vou me perder essa noite.
Não quero bússolas nem rosas
dos ventos.

Terei as estrelas, os sapos
e corujas com os olhos cheios
de lua.

Carregarei na sacola
um pouco do nada ou
tudo.

Abrirei as janelas,
Sininhos poderão entrar
com as bruxas.

Vou me perder essa noite
para me encontrar ao raiar do dia
deitada sobre uma cama de girassóis.


Maria Maria

terça-feira, 19 de agosto de 2008


Pousando

Já fiz a boa ação de hoje.
Já fui cortesã por uma noite
e já fui borboleta
em pétala de girassol.

sobre o vazio
Agora não me restam mais
dedos. Eles já sucumbiram
de solidão.

Maria Maria

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

De origem Seridó

Acho que sou de pano,
de cabelo de milho,
de bagem de algaroba,
de barro do Riacho,
de semente de algodão.

Acho que sou a goteira,
a noite e a tarde de chuva,
a aurora, a madrugada. Ou
uma boneca de pano
com sachê no coração.

Maria Maria

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Foda-se o mundo e quem vive nele

Fodam-se todos!
O ódio rasga meu peito,
sobe para a mente e me domina.
A dor que eu sinto é boa, gostosa, me fascina.
Porque os políticos mandam os pobres para
guerra em vez de irem eles mesmos?
Porque as cobras são discriminadas
porque tem veneno?
E os homens
que o veneno deles está na alma
sofrida, torturada. As mortes causadas
são piores que qualquer veneno
e mesmo assim não são discriminados.
E os negros, pobres, gays não têm direitos?
Fodam-se se todos!
Foda-se o mundo!
Vivi, cresci , envelheci, morri!!!
E nunca fui feliz!!!
Que mundo patético, cheio de ilusão!
Para que viver em um mundo
onde sonhos são apenas sonhos?
Rico: mesquinho, ganha tudo
sem fazer esforço e acha
que é melhor que os outros
a ponto de pisar em todos.
Pobre: trata bem os outros,
trabalha e sabe o sofrimento
que a vida lhe traz.
Pobre quando vira rico
muda o caráter,
fica sem amigos de verdade.
Se esquece que um dia foi pobre,
vira um mesquinho.
Rico quando vira pobre
aprende a valorizar,
não só aquilo que se tem,
mas o que está ao seu redor.
Humanidade miserável!
Cada vento é um grito,
pedindo ajuda, pois o mundo
está morrendo.
Guerras, fome, a humanidade
tem o dom de causar tristeza.
Amigos? Nunca os tive,
mas consegui sendo outra pessoa.
Mas o que isso provou?
Apenas que sou fraco.
Hoje em dia, viver não é mais um desejo
e sim um sonho ruim, esperando
que um dia eu acorde e esqueça que dormi
e que um dia eu sonhei....

Artur Gomes Guirra (14 anos)

sábado, 2 de agosto de 2008


UTOPIA

Às vezes ser pedra, queria: dura, firme e opaca. Queria ser, em certas temporadas, tão seca como uma folha outonal: stric, stric, stric...! Sem nunca ter sido primavera. Há horas em que eu gostaria de ser vidro para partir-me em fragmentos e deixar-me retesada sem a força do vento, impulsionando-me à frente. Tempo há em que a alma dilacera e o corpo chora, chora mesmo, pelos poros de uma tez amadurecida. E a chuva cai! Granizos rompem telhados que impedem uma noite de amor entre os gatos. Tudo na meia estação ou em um inverno de sentimento gélido, de amores mal amados. Mas, o verão me diz que a minha palavra nua sempre será perdoada e que, com ou sem gatos no telhado, terei uma linda noite de amor com meu parceiro imaginário.

Maria Maria